Júlio de Matos Photography

A FORÇA DA NATUREZA [back]

HERBARIUM - BLUE PRINTS


A FORÇA DA NATUREZA - TRABALHOS INICIAIS DE JULIO DE MATOS

Foi há mais de vinte e cinco anos que Júlio de Matos foi meu aluno no Rochester Institute of Technology. Produziu nessa altura as imagens que constituem a base deste elegante livro, Herbarium: Blue Prints, 1980. O facto de eu ainda ser capaz de representar mentalmente algumas delas ao fim de tantos anos atesta a sua perenidade e a sua capacidade de fascinar.

Com mais de 35 anos de ensino, jà trabalhei com muitos estudantes. Ainda lembro claramente a energia positiva do Julio e a emoção que este trabalho gerou. Na altura, ensinava aos alunos os processos tradicionais de cianotipo, provas Van Dyke Brown e impressão em goma bicromatada numa cadeira opcional que o Júlio de Matos tirou. Nessa cadeira dava sempre uma tarefa que chamava Direct Images (Imagens Diretas), o que incentivava os alunos a ignorar a câmara escura tradicional e trabalhar com estas emulsões primitivas de uma forma pictórica. Provavelmente discutimos fotogramas, para além de outras formas de criar negativos a fim de utilizar estes processos.

Julio veio com a idéia de experimentar com papel Diazo, um produto com que estava familiarizado a partir de sua formação anterior. Era uma versão comercialmente disponível do material de impressão azul, familiar para os arquitectos. Era barato e era revelado em vapores de amônia concentrada. Ele sabia muito mais sobre este processo do que eu na altura. Na verdade, ensinou-me algo novo, que é uma das recompensas reais da minha profissão. Ele apresentou um método inovador de colocar material vegetal em contato direto com o papel Diazo na base de uma prensa de gravura. A força da pressão fez com que os sucos das plantas sejam transferidos para o papel, com efeitos imprevisíveis, cores e texturas. Quando trouxe as primeiras imagens, ficàmos ambos entusiasmados.

Em 1980, o campo universitàrio do Rochester Institute of Technology tinha um pequeno jardim Japonês exterior ao edifício da Escola de Fotografia e algumas àrvores recém plantadas. Se alguém estava disposto a andar, o campus estava rodeado de natureza. Muitas das plantas usadas neste trabalho parecem ser flores silvestres vulgares, como a verga-de-ouro, o cardo e folhas de àcer e de àrvores persistentes. Suspeito que algumas destas plantas eram novas para Julio e não existentes no seu Portugal natal. Esta técnica permitiu-lhe documentar diretamente seu novo ambiente.

A ideia de imprimir directamente plantas por contacto em materiais sensíveis à luz é muito simples e das mais antigas. Na verdade, os primeiros livros fotográficos na história deste meio foram produzidos através deste processo. Uma inglesa, Anna Atkins, produziu a sua série Photographs of British Algae, entre 1843 e1853, através da impressão por contacto directamente em papel revestido com a recentemente descoberta solução de cianotipo. Anna Atkins assimilou o processo graças à amizade do pai com o inventor do cianotipo, Sir John Herschel. A sua impressionante obra foi realizada como um estudo científico mas é hoje apreciada pela sua beleza artística.

Embora as imagens de Júlio de Matos se enquadrem directamente na tradição das impressões por contacto com plantas, são tudo menos estàticas. É o que as torna tão cativantes. Explodem. Recusam-se a permanecer imóveis. Tornam o observador consciente das forças vitais que as próprias plantas contêm, através da evidência da seiva, do odor e da humidade. As manchas resultantes eram imprevisíveis e belas na sua cor e colocação. Esta actividade transformou uma tecnologia de escritorio perfeitamente desinteressante, utilizando-a com uma finalidade inteiramente inesperada. Este efeito transformador é, aliàs, o papel que a arte pode desempenhar nas nossas vidas. Foi o que tornou o trabalho então excitante, como ainda o é hoje.

Bea Nettles, Artista, Fotografa. Professora, 2006

(Introduction for the book: “Herbarium: Blue Prints, 1980”)


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