THE MEMORY OF THE WORLD [back]
TA PROHM - THE MEMORY OF THE WORLD (2002)
A Memória do Mundo, Maria do Carmo Serén, Porto 2013
A exuberância viral da floresta tropical do Índico – esta mesma explosão invasiva que vemos nestas imagens de Júlio de Matos - surge-nos como subjacente à conturbada decoração a que os templos indianos nos habituaram Porque, afinal, essa perturbação dos sentidos também a encontramos na pedra do manuelino ou do barroco português que tanto representam o multiculturalismo desenvolvido pelas viagens dos exploradores de quinhentos. É esse, sabemos bem, um dos caminhos que infectam a natureza das formas e o nosso olhar. Em tempo de conceptualismo redutor da forma, estas imagens excessivas de seiva e de sentido e, aparentemente, indiciadoras da fragilidade da acção do homem contra a natureza, insinuam os arquétipos dos nossos medos e a figura de uma natureza hostil. Hoje, em tempos de civilização tecnológica e da cultura da informação, o abraço da vegetação evoca o arrimo das próteses que negoceiam a vida do homem e, como na simbiose da pedra e dos ramos das àrvores, também o homem se torna um misto dos três velhos reinos do mundo, que assim se auto-sustentam. Mas o medo de ser absorvido pelos elementos alheios mantém-se como uma distinção da sua natureza crescentemente abstracta. O homem, dependente cada vez mais do ecrã e dos equipamentos crípticos que substituem o natural, ganha a estranheza do receio a essa vida que conquista o território e avança sobre as construções artificiais com que a humanidade substitui a natureza e vai transformando o seu próprio corpo. Mesmo que, como aqui se torna claro, a natureza seja o suporte dos vestígios da passagem do homem. O tema é, naturalmente, o da possessão. A força invasiva do que vive para lá do homem e do qual cada vez temos menos experiência. Não há conceito quando os seus limites não são seguros. E é esta a natureza das imagens que, mesmo se descodificadas, continuam enigmàticas, possuindo-nos. Possessão e enigma são, de novo, as características recorrentes da fotografia contemporânea. Ao olharmos estas imagens de Júlio de Matos o entendimento e o acordo não lhes retira o arrepio da estranheza.
